O Fermento da Teosofia — H.P. Blavatsky (1881)
O FERMENTO DA TEOSOFIA
[O Teosofista, Vol. II, Nº 6, Março, 1881, pp. 117-118]
Aqueles dentre nós cujo dever é observar o movimento teosófico e auxiliar seu progresso podem permitir-se divertir-se com a presunção ignorante exibida por certos periódicos em suas críticas à nossa Sociedade e seus dirigentes. Alguns parecem pensar que, quando atiram seu punhado de lama, certamente seremos esmagados. Um ou dois foram ainda mais longe, com fingida simpatia, proclamando-nos já irremediavelmente desagregados. É uma pena que não possamos agradá-los, mas assim é, e devem conformar-se com a situação.
Nossa Sociedade enquanto corpo poderia certamente naufragar por má gestão ou pela morte de seus fundadores, mas a IDEIA que ela representa e que ganhou tão ampla circulação prosseguirá como uma onda encrespada de pensamento até se chocar contra a praia dura onde o materialismo recolhe e classifica seus seixos.
Das treze pessoas que compuseram nossa primeira diretoria, em 1875, nove eram espiritualistas de maior ou menor experiência. Dispensa dizer, portanto, que o objetivo da Sociedade não era destruir, mas melhorar e purificar o espiritualismo. Sabíamos que os fenômenos eram reais e acreditávamos serem eles o mais importante de todos os assuntos correntes para investigação. Pois, quer viessem finalmente a provar-se atribuíveis à agência dos falecidos, ou meras manifestações de forças ocultas da natureza agindo em conjunto com latentes poderes psicofisiológicos humanos, eles abriam um grande campo de pesquisa, cujo resultado deveria ser o esclarecimento sobre o problema-mestre da vida, o Homem e suas Relações.
Havíamos visto o fenomenalismo grassar desenfreado e vinte milhões de crentes agarrando-se a uma teoria flutuante após outra na esperança de alcançar a verdade. Tínhamos razão para saber que a verdade inteira só poderia ser encontrada em um lugar, as escolas asiáticas de filosofia, e sentíamo-nos convencidos de que a verdade jamais poderia ser descoberta até que homens de todas as raças e credos se unissem como irmãos na busca. Assim, firmando-nos nesse terreno, começamos a apontar o caminho para o Oriente.
O Ônus da Prova
Nosso primeiro passo foi estabelecer a proposição de que, mesmo admitindo serem os fenômenos reais, não precisavam necessariamente ser atribuídos a almas falecidas. Mostramos que havia ampla evidência histórica de que tais fenômenos haviam, desde os tempos mais remotos, sido exibidos por homens que não eram médiuns, que repudiavam a passividade exigida dos médiuns, e que simplesmente alegavam produzi-los cultivando poderes inerentes em seus próprios seres vivos. Daí que o ônus de provar que estas maravilhas eram e só podiam ser feitas pelos mortos através da agência de agentes mediais passivos cabia aos espiritualistas.
Negar nossa proposição implicava ou a rejeição do testemunho das mais confiáveis autoridades em muitos países e em diferentes épocas, ou a atribuição em massa de mediunidade a todo fazedor de maravilhas mencionado na história. O segundo corno do dilema havia sido adotado. Referência às obras dos mais notáveis escritores espiritualistas, bem como aos órgãos jornalísticos do movimento, mostrará que os thaums, ou "milagres" de todo "mágico", santo, líder religioso e asceta, desde os Magusti Caldeus, o antigo santo hindu, os egípcios Janes e Jambres, o hebreu Moisés e Jesus, e o Profeta Maometano, até o Sannyasi de Benares do Sr. Jacolliot, e o fakir comum de hoje, que tem feito as bocas anglo-indianas escancararem-se de admiração, foram todos e cada um falados como verdadeiras maravilhas mediúnicas.
O Fermento da Verdade
Isto era o melhor que se podia fazer com um assunto difícil, mas não podia impedir os espiritualistas de pensar. Quanto mais pensavam, liam e comparavam notas, durante os últimos cinco anos, com aqueles que viajaram pela Ásia e estudaram a ciência psicológica como ciência, mais o primeiro sentimento acre contra nossa Sociedade se abrandava. Notamos esta mudança na primeira edição desta revista.
Após apenas cinco anos de agitação, sem abuso de nossa parte ou qualquer proselitismo agressivo de nosso lado, o fermento desta grande verdade começou a trabalhar. Pode ser visto de todos os lados. Somos agora amavelmente convidados a mostrar à Europa e à América provas experimentais da correção de nossas afirmações. Pouco a pouco, um corpo de pessoas, incluindo algumas das melhores mentes do movimento, veio para o nosso lado, e muitos agora endossam cordialmente nossa posição de que não pode haver comunhão espiritual, seja com as almas dos vivos ou dos mortos, a menos que seja precedida por auto-espiritualização, a conquista do eu inferior, a educação dos poderes mais nobres dentro de nós.
Os sérios perigos, bem como as gratificações mais evidentes da mediunidade, estão sendo gradualmente apreciados. O fenomenalismo, graças aos esplêndidos trabalhos do Professor Zöllner, do Sr. Crookes, do Sr. Varley e de outros hábeis experimentalistas, tende aos seus devidos limites de um problema da ciência. Há um estudo pensativo e cada vez mais sério da filosofia espiritual. Vemos isto não apenas entre os Espiritualistas da Grã-Bretanha, Australásia e Estados Unidos, mas também entre as classes intelectuais e numerosas dos espíritas e magnetistas do Continente.
Se nada ocorrer para romper a presente harmonia e impedir o progresso das ideias, podemos bem esperar que dentro de mais cinco anos vejamos todo o corpo de investigadores dos fenômenos do mesmerismo e do medianismo mais ou menos imbuído da convicção de que a maior verdade psicológica, em sua forma mais pura, pode ser encontrada nas filosofias indianas. E, que se lembre, atribuímos este grande resultado não a algo que nós, poucos, possamos pessoalmente ter feito ou dito, mas ao crescimento gradual de uma convicção de que a experiência da humanidade e as lições do passado não podem mais ser ignoradas.
Seria fácil encher muitas páginas com extratos do jornalismo de hoje que sustentam as visões acima, mas nos abstemos. Onde quer que estas linhas sejam lidas — e serão por assinantes em quase todos os quadrantes do globo — sua verdade não será negada por observadores imparciais. Apenas para mostrar a tendência das coisas...
Excerto do Spiritual Notes
"A partir de certos sinais delicados, porém bem definidos dos tempos, somos levados a crer que uma grande mudança está gradualmente passando sobre o espírito daquele sistema que, pelos últimos trinta anos, tem sido chamado pelo título não inteiramente feliz de Espiritualismo Moderno. Esta mudança é observável, talvez, não tanto no aspecto popular do assunto, que, sem dúvida, permanecerá sempre, mais ou menos, um de signo e maravilha. É provavelmente necessário que assim seja.
"É muito provavelmente uma condição sine qua non que haja sempre uma franja do puramente maravilhoso para atrair os que clamam 'Eis aqui!' 'Eis ali!', de cujas fileiras o círculo superior e interno dos iniciados possa ser de tempos em tempos recrutado. É aqui que discernimos o grande valor, com todos os seus possíveis abusos, das manifestações físicas, materializações e afins. Estas formam o alfabeto do neófito.
"Mas a mudança que nos impressiona no momento presente é o que podemos chamar o rápido crescimento da classe dos iniciados em oposição aos neófitos: a classe daqueles que já superaram completamente a necessidade destas maravilhas sensíveis (uma necessidade pela qual, no entanto, passaram devidamente) e que estão preparados para passar às mais sublimes alturas da filosofia Espiritual. Não podemos deixar de considerar isto como um sinal eminentemente feliz, porque é a evidência de crescimento normal. Tivemos primeiro a erva, depois a espiga, mas agora temos o grão cheio na espiga.
"Entre as muitas evidências desta mudança, notamos duas especialmente: uma é a publicação do livro do Dr. Wyld sobre Teosofia Cristã, a outra a formação e desenvolvimento da sociedade secreta chamada Guilda do Espírito Santo.
"Percebemos que a ideia primordial não é chamar espíritos do vasto abismo — não forçar a mão do mundo dos Espíritos, por assim dizer, e compelir seus habitantes a vir 'para baixo' (ou 'para cima') até nós, mas sim regular a vida de modo a abrir o sentido adormecido em nosso lado, e permitir-nos ver aqueles que não estão numa terra muito distante, de onde tenham que subir ou descer até nós.
"Nunca será o método popular, mas sua presença, ainda que secreta, em nosso meio, trabalhará como fermento, e afetará toda a massa do Espiritualismo Moderno."
Nota do Compilador: O livro provavelmente referido aqui é "Theosophy and the Higher Life", do Dr. George Wyld, Londres, 1880. O Dr. Wyld posteriormente renunciou à Sociedade Teosófica após perceber que H.P.B. não reconhecia um Deus pessoal.
Fonte: Collected Writings of H.P. Blavatsky, Volume III, pp. 50-54
Tradução: Blog Teosofia ✦ teosofia.net.br
Comentários
Postar um comentário